O caso das 33 mulheres barrigas de aluguel no Camboja que foram forçadas a criar bebês de clientes

Em junho de 2018, 33 mulheres grávidas foram presas e confinadas numa vila em Phnom Penh, capital do Camboja. Todas eram barrigas de aluguel de clientes estrangeiros.

A maioria das 33 mulheres já havia dado à luz uma criança pelo menos uma vez. Já Thilda* estava em sua primeira gravidez.

Com 20 e poucos anos, Thilda é casada com um reparador. Eles vivem em uma vila fora de Phnom Penh e ganham muito pouco. Assim, poderiam nunca conseguir bancar os custos de ter uma criança. Mas se Thilda ganhasse US$ 10 mil para gestar o filho de um estrangeiro, o casal poderia começar sua própria família.

Então, quando um representante de uma agência de barriga de aluguel visitou sua vila, Thilda se inscreveu e foi aceita.

Quando um óvulo fecundado de um casal chinês foi implantado em seu útero, no fim de 2017, a gravidez de aluguel já havia sido proibida no Camboja havia mais de um ano. Mas apenas recentemente o banimento passou a ser controlado com mais rigor. A pena pode chegar a 20 anos de prisão.

“Se eu soubesse que era ilegal, eu nunca teria feito isso”, afirma Thilda.

Uma vez grávida, Thilda foi levada para uma residência lotada em Russey Keo, um bairro caro da capital do Cambodja. Além dela, outras 32 mulheres barrigas de aluguel estavam ali.

Cada quarto era ocupado por cinco mulheres ao mesmo tempo. “Os quartos eram tão pequenos que não havia espaço para andar”, relata Thilda. As saídas eram restritas.

Porém, em junho de 2018, a polícia encontrou o local e prendeu os funcionários da empresa de barriga de aluguel. Depois, as mulheres grávidas também foram denunciadas e presas – exceto uma mulher tailandesa, que foi deportada.

Criar o bebê até os 18 anos ou ser presa

Quatro meses após a detenção, em outubro de 2018, Thilda começou a sentir contrações e foi levada ao hospital.

Quando o bebê nasceu, estava ansiosa para ver seu rosto. “Ele é meu primeiro filho, eu realmente o amo muito. Me sinto péssima que ele tenha vindo ao mundo e tenha ficado detido no hospital da polícia por meses”, diz ela.

Três dias depois do nascimento, os pais chineses do bebê chegaram ao Camboja e puderam se encontrar com Thilda. “Ele (o pai chinês) segurou o bebê e chorou, como se estivesse de coração partido. Eu senti muita pena dele”, relata Thilda.

O homem chinês passou 20 minutos com seu filho. Depois, se juntou a sua mulher, que o esperava do lado de fora. O encontro foi tão rápido que o casal e Thilda não chegaram a trocar números de telefone. Eles nunca mais se viram.

Dois meses depois, Thilda e o bebê foram autorizados a deixar o hospital da polícia. Porém, com uma condição: Thilda não deveria entregar a criança para os pais biológicos que contrataram o serviço de barriga de aluguel. Em vez disso, ela deveria criar a criança até os 18 anos. Caso contrário, teria que cumprir a pena de 20 anos na cadeia pelo crime de ter sido barriga de aluguel.

As outras mulheres grávidas detidas junto com Thilda também receberam a mesma imposição. Ficou claro que todas elas seriam monitoradas constantemente, para garantir que ficariam com as crianças.

Thilda, então, voltou para sua casa com o bebê. Ela não parece arrependida de ter sido barriga de aluguel e gosta da criança como se fosse seu filho.

Seu marido também ama a criança. “Meu marido sempre brinca com o bebê depois de chegar do trabalho. Ele ajuda a cuidar dele à noite, para que eu possa dormir”, relata Thilda.

Sre-Oun, sua sogra, também está profundamente ligada ao novo membro da família. “Eu não me importo que ele não tenha laços de sangue com nossa família. Agora, é impossível entregá-lo. É tão lindo, mesmo quando está gritando para brincarem com ele”, fala.

Mas a chegada da criança representa um difícil problema financeiro para o casal. Como o bebê não foi entregue ao casal chinês, Thilda nunca recebeu os US$ 10 mil acertados. Os ganhos do marido, de US$ 250 mensais, não são suficientes para criar um filho.

Thilda não tem planos de dizer ao filho como ele foi concebido até que complete 18 anos. Mas é possível que o casal chinês reapareça antes disso. É improvável que eles saibam onde Thilda vive, mas ela não descarta essa possibilidade, nem tentaria impedir visitas.

“Eu sei que eles amam o bebê também, mas agora já não podem tirá-lo de mim”.

Gravidez de risco em casa de palafita

Outra das 33 mulheres detidas foi Neth, que está com uma gravidez de risco. Ela foi libertada do hospital ao mesmo tempo que Thilda.

Mas Neth não tem muitas informações sobre os pais biológicos da criança que está carregando – a maioria dos clientes da agência de barriga de aluguel era chinesa, mas um dos casais era japonês e outro, angolano.

O marido dela, Sok, sempre foi contra a gestação. Quando Neth citou essa possibilidade pela primeira vez, ele falou para a esposa não fazer isso. Sok sabia do banimento da prática no Camboja e dos riscos envolvidos.

O casal tem duas filhas – uma de dois anos e outra de seis anos. Vivem em uma casa compartilhada entre 17 pessoas em uma aldeia no rio Mekong, há muitas horas de Phnom Penh. A construção é de palafitas. Os pisos são feitos de bambu e as paredes, de telhas de ferro.

Foi com o objetivo de juntar dinheiro para construir uma casa para a família que Neth decidiu ser barriga de aluguel. Então, quando o marido tentou dissuadi-la, ela disse: “Ok, eu desisto da ideia e vou ganhar dinheiro como empregada doméstica na capital”.

Mas, na verdade, Neth acabou mantendo o plano original. O marido ficou chocado, mas não podia fazer mais nada.

Pouco tempo depois, a vila em que as 33 grávidas estavam foi descoberta pela polícia e a história foi parar no noticiário local. Alguns vizinhos reconheceram Neth e os boatos se espalharam. Por isso, ela planeja contar ao filho como ele foi concebido. “Se eu não disser, os vizinhos farão isso.”

Como Thilda e sua família, Sok e Neth agora enfrentam graves dificuldades financeiras. Ela recebeu US$ 500 quando se tornou barriga de aluguel, mas já gastou quase tudo. A família economizou US$ 50 para pagar as taxas do hospital, mas isso não será suficiente.

A renda diária de Sok, que é pescador, varia entre US$ 5 e US$ 25. “Eu não pretendo criar meu filho sem que ele vá à escola”, disse ele.

Neth admite a possibilidade de procurar emprego em Phnom Penh depois de dar à luz. Mas, para isso, ela precisaria de permissão do governo – atualmente, tem que comparecer todo mês à delegacia.

Ela espera conseguir amamentar seu filho e, assim, economizar o dinheiro que gastaria com leite em pó. Uma ONG chamada Agape International Missions, que tem ajudado as mães de aluguel desde que o caso foi descoberto, doou roupas, fraldas e toalhas.

O marido dela tem evitado transmitir sua preocupação à mulher. “A vida está prestes a ficar muito mais difícil”, afirmou.

Clientela chinesa

A indústria comercial de barrigas de aluguel decolou no Camboja depois de ter sido proibida na Tailândia e na Índia, em 2015, e no Nepal, em 2016.

Nessa mesma época, ocorreu o relaxamento da política de filho único na China. Assim, de uma hora para outra, vários casais chineses poderiam ter outro filho legalmente, mas parte deles já não era mais capaz de fazê-lo naturalmente.

“Eles são muito velhos para dar à luz, mas agora têm condições financeiras e sociais mais favoráveis para criar filhos”, afirma Liang Bo, presidente da agência de fertilidade e gestação de aluguel chinesa Shenzhou Zhongtai.

Como a prática de barriga de aluguel é proibida na China, essa e outras agências passaram a focar o Camboja.

“Nós ajudamos não apenas pais chineses. Há americanos, canadenses, tailandeses, japoneses, nepaleses… Temos entre os clientes um casal de russos que têm Aids e tiveram por barriga de aluguel graças aos nossos serviços.”

Porém, desde o banimento da prática no Camboja, Liang Bo afirma ter parado de contratar barrigas de aluguel no país. Diz também que o caso das 33 grávidas é ligado a empresas menores. “Todas essas agências surgiram nos últimos dois, três anos. Deve haver umas 500 ou 600 delas. E, às vezes, há apenas uma pessoa por trás da empresa”, disse.

Na noite da prisão das pessoas ligadas ao caso no Camboja, Liang Bo começou a receber telefonemas de casais chineses desesperados que tentavam, sem sucesso, falar com seus agentes cambojanos. “É uma perda terrível para as pessoas que queriam ter filhos”. É provável que cada casal tenha pago mais de US$ 70 mil. Mas o pior de tudo é que os filhos deles nascerão e crescerão na família de outra pessoa.

Monitoramento das mães de aluguel

Chou Bun Eng, vice-ministra do interior do Camboja, afirma que alguns desses pais biológicos conseguiram rastrear as mães de aluguel. Porém, o governo está monitorando tudo.

“Se quiséssemos prendê-los (os pais biológicos), poderíamos ter feito isso há muito tempo. Mas só faremos isso se eles tentarem levar as crianças para fora do país”, acrescenta.

Não há nada que impeça os pais de darem apoio financeiro às mães de aluguel. Isso abre a possibilidade de as mães de aluguel cuidarem das crianças até que elas completem 18 anos e, então, possam decidir se ficam no Camboja ou se juntam aos pais biológicos no exterior.

Chou Bun Eng argumenta que o Camboja proibiu a gestação de aluguel comercial porque é uma forma de tráfico e as crianças são vítimas – ela integra também o Comitê contra o Tráfico Humano do governo cambojano.

“Eles negociam o preço no útero. Eles não se importam com a criança porque elas são tratadas como bens. Se as crianças nascem com algum tipo de deficiência, o preço cai. Eles vão abandoná-las e não vão assumir nenhuma responsabilidade. E às vezes a criança será vendida para outra pessoa.”

As mães de aluguel muitas vezes não sabem quem pagou pela gestação, apenas a agência. E para o governo do Camboja, os pais biológicos não são considerados pais.

“Na lei do Camboja, a criança no útero de uma mulher grávida é filha dela”, afirmou Eng. Para a vice-ministra, a prisão das mães foi uma forma de protegê-las.

Apoio dos pais estrangeiros

Bopha, de 37 anos, carregou em seu ventre o bebê de um casal holandês homossexual. Isso ocorreu depois da proibição ser adotada no Camboja, mas antes da operação policial contra a agência que reteve as 33 mulheres grávidas.

Como Thilda e Neth, Bopha decidiu ser barriga de aluguel para ganhar dinheiro e discorda que a prática seja uma forma de tráfico humano. “Mães de aluguel também ajudam outras pessoas que não podem ter filhos. Esses pais podem ser muito velhos ou homossexuais. E as mães de aluguel podem ajudá-los, então usar o termo ‘tráfico’ é excessivo”, diz ela.

Embora ainda viva em uma cabana de metal, Bopha diz que o dinheiro que recebeu para gestar o filho do casal holandês foi muito útil. Com ele, pagou dívidas, comprou terrenos e se estabeleceu como vendedora de cosméticos.

A mulher afirma que ainda mantém contato com um dos pais do bebê, que viajou ao Camboja para cuidar dela durante a gestação e esteve presente no parto. Até hoje ele envia imagens da criança para Bopha. “Eu vejo o bebê crescer, aprender a andar, a correr, a comer… Em minha cabeça, ele é meu filho”, diz.

Bebê entregue no avião

Va-Tei também deu à luz no ano passado, mas a relação dela com os pais biológicos – um casal homossexual dos Estados Unidos – foi bem diferente.

Para conseguir sair com a criança do Camboja, Va-Tei, o bebê e os pais americanos viajaram juntos para Singapura. No embarque, a mulher precisou esconder o rosto da criança, para que as autoridades não percebessem os traços diferentes. Então, uma vez que o avião estava no ar, o bebê foi entregue.

Estava claro que o casal não confiava nela, afirma Va-Tei. “Estávamos no aeroporto em Singapura e era minha última chance de segurar a criança. Eles não queriam deixar, então tive que pedir ajuda ao motorista para traduzir que eles não precisavam se preocupar porque eu não iria fugir com a criança”.

Depois, o casal foi para os EUA com o bebê e Va-Tei voltou para o Camboja. Ela diz que se lembra apenas vagamente do nome do bebê. “É bastante longo e difícil de pronunciar. Uma vez eu fiquei acordada a noite toda tentando lembrar o nome do bebê. Eu só lembro do som ‘ni-co-la’.”

Nicholas? “Sim! Nicholas.”

Para a mãe de aluguel, foi bom para a criança ter se mudado para os Estados Unidos, porque ela não teria condições de criá-lo adequadamente. Apesar disso, ela diz que se arrepende do que fez.

“Eu estava tão triste de ter que dar a criança. Ele era tão lindo”.

Va-Tei pensa de tempos em tempos em Nicholas. “Eu penso sobre ele crescendo, como ele se parece agora. Os pais não entram em contato comigo. Algumas outras mães de aluguel até recebem fotos, mas para mim, nada. Nunca.”

*Alguns nomes foram modificados na reportagem.

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